o cusco

"Não é o Exterminador, é pior" (xtalBiskit)

O artigo abaixo é uma tradução livre desta publicação, conforme estava em 2026-07-02. A escolha por omitir algum trechos tenta evitar qualquer perda de sentido ou da força do argumento original. Comentários pessoais ao final.

Eu achava que a ideia de um apocalipse robô era estúpida. (Não feche o texto ainda, eu prometo que vou chegar num bom ponto.) Não porque a IA é segura, mas porque essa fantasia específica (Skynet acorda, constrói um exército humanoide cromado, declara guerra contra a humanidade) deixa passar dezenas de passos e basicamente entende tudo errado. Robôs humanoides são difíceis de construir, caros de operar e pior do que humanos na maioria das coisas que você espera fazer com uma arma.

Recentemente, eu tenho jogado muito ARC Raiders, um jogo onde você faz parte dos últimos humanos lutando contra drones voadores autônomos (entre outras coisas terríveis). Como é um videogame, eles fizeram o cenário ser "jogável", o que significa que os drones não são tão inteligentes nem taticamente competentes quanto eles poderiam na vida real. Se fossem, jogadores humanos não teriam qualquer chance. (Mesmo enfraquecidos, porém, drones já são inimigos tão difíceis que os jogadores humanos começaram a espontaneamente se ajudar ao invés de atirar uns nos outros.)

Quem realmente desenvolve drones está trabalhando na direção oposta. O quão injusto eles conseguem os fazer?

Eu reconheço o quão estranho é estar usando um videogame como ponto de partida para uma análise de risco, mas drones autônomos baratos já estão ativamente matando pessoas na Ucrânia neste exato momento [Nota do Tradutor: ... e em Gaza, Irã e arredores]. Esse conflito se tornou o laboratório involuntário da humanidade para exatamente esse tipo de tecnologia.

Um drone armado é uma mina explosiva voadora que sai procurando alvos. Ele não precisa navegar em escadas ou abrir portas e levar um rifle. Ele move em três dimensões sem se importar com o terreno. Ele vem de qualquer lado, ângulo, inclusive direto de cima de qualquer proteção que você esteja se escondendo atrás. Ele segue você dentro de construções. Ele não precisa atirar em ti, só chegar perto o suficiente para explodir.

Por um custo menor que um único rifle de assalto, tu podes pegar um drone FPS (pilotagem em primeira-pessoa) meia-boca e amarrar um explosivo nele. Dá pra construir na garagem. Todos os componentes são legais. Um único e determinado mau agente pode construir um pela manhã e jogar contra uma escola primária na tarde. É horrível, mas não é sequer a pior parte.

Tu provavelmente viu shows de luzes de drones em eventos de estádio ou festivais na rua. Centenas de drones se movendo em padrões coordenados. Não é uma centena de pilotos. Eles são todos autônomos e se comunicam com um sistema central de controle, onde cada um sabe exatamente onde está. Agora, troque as luzes por explosivos e troque "formar uma figura" com "encontrar uma figura humana". Troque o ambiente aberto de fogos de artifícios com um parque, primário, hospital ou igreja da sua escolha. Nota como a coisa fica assustadora muito rápido?

IAs do estilo Skynet não precisam nem estar envolvidas. Tudo que precisa é uma célula terrorista pequena. Nem isso, um único engenheiro frustrado com um financiamento imobiliário apertando e um complexo de Timothy McVeigh [NT: Terrorista doméstico dos EUA] já é mais que suficiente. A história da IA fora de controle é praticamente desviar do ponto. As ferramentas já existem. A única coisa entre nós e um ataque catastrófico de drones em um alvo civil é... o quê? A ética de todo mundo que poderia potencialmente fazer isso?

Ah, e eu cheguei a falar que sequer existe defesa civil contra isso ainda?

Uma arma de mão é inútil. As chances de acertar algo vital num drone enquanto ele ainda está numa distância segura é basicamente nula. Uma espingarda pode ser infimamente melhor, mas não muito. Se você tivesse uma mira longa, uma área ampla de acerto, e fosse de dia, e você visse ele vindo, aí então, talvez, talvez, você teria chance contra um único drone. Contra um enxame coordenado à noite, você estaria trazendo um revolver pra uma briga de drone.

(...)

As ferramentas que realmente poderiam funcionar como "Jammers" de rádio-frequência, armas de energia direcionada e sistemas de laser feitos para isso são extravagantemente ilegais de ter. Você definitivamente não pode comprar um desses, e mesmo se conseguisse, possivelmente não é algo que dê pra carregar por aí. Muitas até precisam de caminhonetes adaptadas.

Então, não há defesa civil que pode ser realisticamente ou legalmente distribuída. E governos civis? Forças policiais? Adoraria acreditar que eles tem chance de lidar com isso, sério. Mas essas são as mesmas instituições que mal conseguem impedir tiroteios em escolas, que é só uma pessoa com uma arma. A ideia de que elas vão conseguir desenvolver alguma infraestrutura contra um ataque coordenado de drones autônomos é, sem ser rude, um exagero.

A resposta honesta para "o que pode parar um enxame de drones hostis" é, provavelmente, "um enxame de drones defensivos". O que é um enxame defensivo? Bom que você perguntou! É algo que eu e um amigo inventamos semana passada e não existe ainda, é mal definido, e requere resolver problemas enormes de engenharia antes mesmo que existam. Acabei de assistir a série do Benn Jordan sobre vulnerabilidades de segurança em tecnologias de câmeras inteligentes e cachorros-robô adotadas por municípios. Teríamos o mesmo processo de edital, o mesmo departamento de TI e o mesmo vão entre as pessoas que especificam a tecnologia e as que são responsáveis pelo que ela faz.

Então: defesa individual é legalmente impossível de preparar de antemão. Proteção municipal em escala requere vontade política que não existe. Onde isso nos deixa? Eu suspeito que algo terrível vai ter que acontecer para sequer as pessoas terem noção que o problema existe. Então vamos passar várias leis teatrais que criminalizarão ter drones, mas vão impedir em nada um criminoso determinado. É isso que a gente sempre faz. É o nosso jeitinho.

Quando eu tento explicar isso para as pessoas, eu consigo ver o exato momento em que elas guardam a informação na caixinha ao lado de "Invasão Alienígena". Sei que soa assim. Um enxame de drones atacando civis nos Estados Unidos soa tão plausível quanto uma arma de controle do clima ou um satélite de controle mental.

Mas a lógica não é complicada. A tecnologia já é madura. Os componentes são legais e baratos. A infraestrutura de defesa não existe. O contexto regulatório está vinte anos atrasado.

Eu vou odiar estar certo sobre isso.


Cusco

O blog do xtalBiskit foi um dos que encontrei aleatoriamente em algum momento de exploração da "renascença da velha web" e coloquei nos favoritos. Esse texto hoje me pegou de surpresa e realmente conseguiu me deixar com um pouco menos de esperança no futuro.

E o ponto de desespero não é sequer pelos cenários que ele descreveu, que são expressões de um enquadramento profundamente estadunidense, mas sim por cenários possíveis mais latino-americanos, de violência no campo e da ação miliciana de supressão de lutas por terra e território de povos pretos, indígenas e pobres. O uso de drones como ferramentas de violência política e social – de terrorismo estatal ou privado – contra comunidades tradicionais, resistências agroecológicas e dissidentes do sistema colonial tecno-petro-farmaco-financeiro.

Terroristas são um risco ínfimo e possivelmente dependeriam de coordenação e financiamento governamental ou privado estrangeiro para conseguir montar algo ainda relativamente caro e elaborado como um enxame de drones explosivos autônomos.

Por outro lado, proprietários de grandes terras já usam drones autônomos para ataques químicos com agrotóxicos; já gastam com jagunços armados; já tem acesso a empresas com tecnologia de ponta para intensificar a capacidade extrativista por meio de tecnologia, petroderivados e redes de investimento.

É questão de tempo até o primeiro atentado a drone promovido pelo governo ou pelo agribusiness.

#sobrevivencialismo #tecnologia #traduções