Custear o sonho
Às vezes, temos a oportunidade de analisar algum aspecto incômodo de nossa vida em voz alta. Abordar algum tema essencial, discutindo prós e contras e posicionando um argumento favorável a um curso de ação específico nos dá a chance de julgar criticamente nossa própria posição pública.
Era o dia mais frio do ano, até então. No domingo, a noite prometia a mínima mais baixa, com pontos de chuva congelada na Serra. Nós, em família, estávamos em conversas cruzadas, sob janelas fechadas, tentando aproveitar o calor que emanava do pequeno calefator ao lado da TV. Eu tenho paixão pelo fogo de uma lareira, mas, indiscutivelmente, o cubo preto junto à parede é muito eficiente e incomparavelmente mais seguro. "Imagino como deve estar no sítio", pensei olhando pela janela.
O apartamento de meus pais está a algumas cidades mais ao Norte do nosso. Fomos para o dia das mães e aniversário de meu pai, que é próximo. Quando outros familiares já haviam ido embora, empanturrados de Strogonoff e torta, tivemos aquele tipo de conversa um pouco mais estratégica, mas quase totalmente no domínio da especulação sobre o futuro próximo, como costuma acontecer.
Um dos temas foi meu trabalho corporativo. A mãe foi direto na jugular, "até quando tu vai aguentar, com toda tua forma de ver o mundo, trabalhar com isso?". Não esperava precisão tão cirúrgica, nem achei que tinha evidenciado motivos pra evocar esse cenário de vida. Deve ser resultado lógico – ela conhece meus princípios, conhece meus anseios, e eu trabalho programando para uma empresa estadunidense que ajuda outras empresas tecnológicas a gerenciar o próprio negócio. 2 + 2 = 5.
Foi quando passei a tentar defender que não havia perspectiva de sair da programação. Não havia – ou melhor, não há planos de, proativamente, deixar de trabalhar com isso.
Não tenho certeza sobre o mecanismo que torna tão mais óbvias as falhas de uma construção argumentativa quando falamos, mas suponho que o pensamento puro nos permite construir uma opinião por base em uma colcha de retalhos de ideias e percepções que dão forma a uma vibe sobre o tema e sobre que caminho seguir. Essa vibe, por definição, é imprecisa e aceita relações não evidenciadas entre os pensamentos e percepções fundamentais ao curso de ação – brechas que a argumentação linear1 de uma fala (ou de um texto) deixa implorando por investigação.
Fazer análise estratégica da vida já não é uma prática (e competência) muito difundida, ainda menos se intencionamos abordar um tema cuja confiança nas próprias crenças é baixa ou quando temos ambivalência sobre nossos pressupostos. Nesses casos, arriscamos uma exposição vulnerável de nossa identidade: achamos ou não achamos? Queremos ou não queremos? Por que não 'y'? Por que isso incomoda?
Se expor ao escrutínio alheio, pra mim, é de valor secundário. Fazer isso me põe primeiro sob meu próprio escrutínio, um mais rígido, que quer filtrar a besteira para que os outros não precisem lidar com ela. Eu acredito que entender2 a si mesmo é o melhor caminho para conquistar uma boa vida, porque não há – em minha visão, reitero – uma vida inerentemente boa, senão em movimento de contínua tensão harmônica com nossa subjetividade mutante.
Ou, em outras palavras: a vida é boa quando a gente gosta dela – mas, no geral, não sabemos do quê gostamos e, menos ainda, do que vamos gostar. Expor nossos planos e intenções e tentar sustentá-los em diálogo é um exercício de melhor perceber os sinais internos que são acionados pelo tema e, portanto, ter a chance de ir às raízes de insatisfação. O que descobri com a prática foi que a maior parte dos meus desejos tem origem em desejos mais fundamentais e abstratos, mais nucleares à minha identidade e auto-imagem.
Há alguns anos, eu tento explorar detalhadamente meus anseios, valores, sonhos, gostos e desgostos. Alguns cenários estão postos com certa estabilidade: eu desejo morar no campo, ter plantio agroflorestal, cuidar de alguns poucos animais e fazer dinheiro com negócios próprios. Mas está claro pra mim que o custo de começar é alto – por isso, na minha estratégia de vida, fez sentido projetar uma fase de acumulação rápida de capital com baixo3 risco: a carreira corporativa.
A história sempre é mais complexa que a narrativa. Respeitando a inteligência de quem lê, enfatizo que a minha subjetividade foi mudando no processo de aproximação com a agroecologia enquanto ainda buscava uma forma mais eficiente de renda. O plano não foi traçado em uma sala escura e vivido no sair pela porta, ele foi gerado, informado e deformado em função das experiências no tempo (ainda que, sim, algumas vezes escrito e re-escrito). A estratégia de vida, portanto, foi (re)definida algumas vezes, enquanto as práticas do cotidiano foram informadas4 por elas. Não consigo imaginar o meu cenário de vida atual sendo possível, se removermos o meu envolvimento intencional e consciente com minha subjetividade e minha atitude no mundo, minhas ações cotidianas, em busca de objetivos claros.
A carreira corporativa em programação me permite alavancar a renda a partir da desigualdade econômica global, rompendo a bolha de prosperidade interna aos países desenvolvidos sem precisar fisicamente coexistir naqueles territórios onde a moeda e o trabalho tem maior valor (em relação às outras moedas e ao trabalho de países marginalizados). Não morar lá implica em ter um custo menor de vida, enquanto se consegue um patamar de salário inalcançável no mercado nacional. Indiscutivelmente, o que soa como ganho para o trabalhador é também um ganho para a empresa, que reduz custos, ao contratar mão de obra mais barata, sem ter qualquer preocupação com a exportação do dinheiro (que seria um fator político / ideológico limitante em uma análise mais governamental ou protecionista).
O mercado financeiro torna extremamente fácil a mobilidade do capital entre nações, enquanto o trabalho, em geral, é restrito aos limites materiais de sua execução. Os trabalhos intelectuais cuja execução está desvinculada do território são a exceção. Essa alternativa, quando viável, é a mais eficiente pra um acúmulo financeiro rápido de baixo risco. Colocar um projeto de vida no campo com produção agroecológica e infraestrutura sustentável tem custo, e a forma de o implementar com maior chance de sucesso é com uma boa reserva financeira. Não há nada totalmente ético sob o sistema econômico dominante.
Bueno – o fato é que, ao falar em voz alta, sou obrigado a enfrentar meus demônios e minhas contradições, mas também de lembrar, no decorrer, que existe um plano e ele têm fundamento. Também, consigo ver com clareza os motivos que me mantém no caminho que estou seguindo.
Escrever proporciona os mesmos benefícios, com o adicional de que posso revisar as ideias algumas vezes, até que entenda tudo que está envolvido e consiga montar com maior coerência minha visão ou decisão. Ter estudado e feito um Contexto Holístico, por exemplo, não foi uma "virada de chave" da orientação do caminho, mas tornou evidente o local para onde caminhar. Envolver-se com essa escrita consolidou uma visão de futuro específica que, de todo coração, eu almejo.
Evidentemente, o trabalho remoto é parte do plano de transição para o campo. Mas a estabilidade da minha posição atual é, em análise do cenário individual e coletivo do presente, mais valiosa que o benefício do trabalho totalmente remoto em um contexto desconhecido.
O mercado não é mais o mesmo. Eu já consegui muito ao me inserir em uma empresa gringa, com contrato em dólar, que, por acaso, possui uma cultura muito boa entre colegas. Mesmo que ela tenha seus problemas internos, seja inócua ou ainda indiretamente prejudicial para o ecossistema, não seja representativa do potencial de alta renda internacional, tenha risco de falência no curto ou médio prazo e exija presença num escritório, tenho uma segurança muito maior de continuidade aqui, pela posição já conquistada e a experiência e as relações formadas, do que sobre uma hipotética vaga que ainda precisaria ser descoberta.
Com a compra do sítio, preciso quitar a dívida e recuperar a reserva de emergência. Estabilidade da renda aqui é mais valiosa que a flexibilidade de presença. Esse tipo de decisão só dá pra fazer se a gente se preocupa em analisar metodicamente nossa vida.
Uma vibe em mim me diz que a fala não é linear - é semi, pseudo ou quase linear. Mas não tô afim de emburacar na precisão dessa definição.↩
"Entender", aqui, eu considero um processo construtivo; a gente explora sinais imprecisos da nossa subjetividade e constrói racionalizações úteis. Essas racionalizações nos permitem projetar o efeito de diferentes cenários de vida na nossa subjetividade (emoções, identidade, auto-imagem).↩
O risco, na verdade, é maior do que eu previa – mas há maneiras suficientes de mitigá-los pra não mudar essa classificação. É o universo de possibilidades que ainda me faz considerar o risco 'baixo'.↩
Quero destacar explicitamente aqui o entendimento de 'informado' como aquilo que toma a forma ('fórma') de uma forma ('fôrma') cuja estrutura é conceitual ou 'de ideias'.↩